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Cumplicidades

06 set, 2019
a
10 nov, 2019
De 3ª fª a domingo, das 14h às 19h
Casa Amarela - Galeria Municipal
Entrada Gratuita

Uma essencialidade sensorial e telúrica, aliada a uma dimensão temporal de memória, caracteriza a pintura de Clotilde Fava.
A estadia em Angola e a memória feliz desse período, marcaram decisivamente o seu imaginário pictórico. Depois, a redescoberta, em Cabo Verde, da vivência de um mundo africano perdido,
despoletaram um processo onde à dimensão memorialística acresceu uma vertente fortemente sexualizada.
É uma pintura figurativa, formalmente marcada pela essencialidade do traço nascida do cubismo, revitalizada pela prática dos muralistas mexicanos dos Anos 30. Um mundo de mulheres africanas, de formas redondas e poderosas, rostos e braços potentes e arredondados, seios generosos, ventres por vezes proeminentes, captadas fundamentalmente nos seus trabalhos, de que a linguagem formal é metáfora, e também em escassos lazeres.
Se excetuarmos as cabras brancas assexualizadas, simbióticos cúmplices, é no mundo animal que se encontra presente o elemento masculino no universo de Clotilde Fava, Essa dualidade é particularmente evidente na série Cabo Verde.
Nesta série, a ortogonalidade do enquadramento anima-se de cores mais vivas e de volumes mais pronunciados. São pinceladas sobrepostas, em tons de branco, amarelos e ocres mas, agora,
animadas de azuis e vermelhos intensos, que se mesclam por vezes, ou se diluem em zonas de bandas paralelas, progressivamente desvanecidas. Estes planos definem de novo janelas, paredes, muretes que, como molduras, enquadram os rostos das negras ou sustêm os seus corpos.
Quando Clotilde Fava pinta as festas de Cabo-Verde, os homens surgem mascarados e novamente metamorfoseados. Em composições assimétricas, onde os vermelhos, amarelos e azuis
se realçam, eles são caretos monstruosos com chifres e dentes, ou, mais ainda, galos, bodes, cães e gatos inofensivos, a máscara evidenciada pelo fio que a cinge à cabeça, perfilados sob os frisos
das mulheres omnipresentes.
Os galos vermelhos são antropomorfizados, de olhar esgazeado, com longas patas como braços, ou corpos verdadeiramente humanizados, parecendo manifestar uma agressividade impotente. O mesmo se passa com os peixes que espreitam das bancas e alguidares, dotados de longas guelras vermelhas e de mãos que, em vão, buscam uma impossível salvação.
São criaturas masculinas híbridas que, em certos casos, adquirem uma vertente mítica monstruosa, metamorfoseados em seres alados inutilmente agressivos, peixes com asas ou homenzinhos com corpos de aves, como Bosch outrora o fez para ilustrar visualmente o pecado e as tentações dos santos.
Através do exercício da memória e de um imaginário centrado na mulher africana, Clotilde Fava exprime uma sensibilidade essencialmente telúrica e genésica, raramente conhecida entre nós na produção plástica no feminino.

Rui Afonso Santos