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Tão cansados, tão chorosos,/Tão doentes da partida,lDa morte mais desejosos/Cem
mil vezes que da vida. Há fortunas literárias que em pouca abundância numeral
assentam, como é o caso deste João Ruiz (ou Rodrigues) de Castelo Branco, que,
pouco mais tendo feito que estes sublimes versos, há-de ser lembrado e repetido
enquanto houver língua portuguesa. Um homem vem a este mundo, dá duas voltas e
vai-se embora, foi quanto bastou para modelar e dar corpo a uma expressão de sensibilidade
que depois se incorpora em comportamentos colectivos.
Neste reflectir se achou o viajante defrontado com a Sé, que não sabe o que
há-de fazer da inexpressiva fachada que lhe deram. Dentro se vê que não se aprimoraram
particularmente os que tiveram por missão enriquecer de arte o templo a S. Miguel
consagrado: confiemos que a magnanimidade do arcanjo lhes perdoará o pouco caso.
Muitos outros perdões vão ser necessários, e do pecado da soberba não se livra
o bispo D. Vicente, que sobre a porta da sacristia mandou colocar o seu brasão,
que é, para tudo dizer em três palavras, um delírio de pedra. Cristo teve como
único emblema uma bruta cruz, mas os seus bispos vão atravancar o céu com quebra-cabeças
heráldicos que darão que fazer para toda a eternidade.
Este lado da cidade é tão provinciano, ou provincial, para retirar o que possa
ser entendido como pejorativo na primeira palavra, que o viajante tem dificuldade
em admitir que ao redor destas ruas e pequenos largos haja sinais de vida moderna,
febril e agitada, como se diz. É uma impressão que lhe fica e em toda a visita
não se modificará. Aos poucos vai-se aproximando do jardim do paço. Está aqui
o cruzeiro de S. João, pedra rendilhada, vazada como uma filigrana, onde, por
mais que se procure, não se encontrará uma superfície lisa. É o triunfo da curva,
do enrolamento, da eflorescência. Mas este cruzeiro, desamparado numa larga praça
de passagem lateral, aparece alheio ao espaço que o circunda, como se tivesse
sido vítima de transplantação mal pensada. Supõe o viajante que sempre ali esteve.
Porém, num momento qualquer, o cruzeiro desligou-se da praça, desdenhou ou foi
desdenhado.
0 viajante passa ao lado do jardim, mas ainda não entrará. Vai primeiro ao
museu, onde estima ver a boa mostra arqueológica, a reconstituição da arte rupestre
do vale do Tejo com o hercúleo caçador que transporta aos ombros um veado, e,
muito mais próxima, a delicada estatueta romana. Enternece-se o viajante diante
da evocação à deusa Trebaruna, a quem Leite de Vasconcelos dedica tão maus versos
e tão sincero amor, e regista o documentado caso de gémeos siameses, ilustrado
realisticamente nesta pedra tumular, infelizmente mutilada. Não é um grande museu,
este de Castelo Branco, mas vê-se com prazer. Magnífico aquele Santo António,
atribuído a Francisco Henriques, com o seu rosto de homem simples, segurando o
livro em que o Menino se senta, a quem não ousa tocar. 0 seu rosto, de dura barba
mal rapada, está rendido, as pálpebras baixam-se, e é mais do que manifesto que
este frade rústico não é o magnífico orador que evangelizou os peixes nem lhe
toca a humildade o fundo sumptuoso do painel, com a sua coluna de pórfiro e a
enramada tapeçaria. 0 viajante observa, naquela pintura também do século XVI,
o anjo anunciador que entra pela janela feita à sua medida, mais colibri do que
mensageiro, e compraz-se, em dois pensamentos, cada qual de seu caminho. 0 primeiro
é o do interesse que teria um estudo dos mosaicos que surgem nestas pinturas quinhentistas,
e também antes e depois desse áureo século das nossas artes: cuida que daí se
extrairiam dados de cronologia, de proximidade de motivos, de influência recíproca
entre as oficinas de pintura e as oficinas de mosaicos. Decerto o potencial informativo
destes elementos estruturais e de decoração não se esgotou com a descoberta de
Almada Negreiros sobre a disposição dos painéis de São Vicente de Fora. Quanto
ao segundo pensamento, é possível que desagrade a gente de feitio miudinho em
pontos de ortodoxia religiosa. Vem a ser a frequência com que nestas Anunciações
o pintor insiste em mostrar a alcova de dormir, enquadrando-a sob um arco abatido,
como neste caso, afastando pesados reposteiros, como em outros casos acontece.
É verdade que nesta altura estava já Maria casada com José, mas sendo a descida
do Espírito Santo incorpórea, está o leito a mais, salvo, se como ao viajante
parece, não pudesse o pintor esquecer, e assim o denunciasse, que naquele lugar,
em geral, são concebidos os filhos dos homens. Tendo assim produzido dois pensamentos
originais, foi o viajante ver a secção de etnografia, onde notou a vetustez das
urnas eleitorais, a delirante máquina para extracção de números nas sortes militares,
e os utensílios de lavoura, o tear primitivo. Ao lado há magníficas colchas regionais,
ouvem-se por trás duma cortina as vozes das alunas bordadeiras, a esta hora está
o viajante arrependido de não a ter afastado e dado os "bons-dias" para dentro.
Numa outra sala há bandeiras da Misericórdia, mas tão repintadas que não chega
a saber-se como seriam na primitiva.
0 viajante entrou pelo rés-do-chão, sai pela escadaria do primeiro andar, que
faz por descer o mais episcopalmente possível. E agora, sim, vai ao jardim passear.
Em Monsanto vive o povo das pedras, aqui é uma galeria de ilustradas figuras,
angélicas, apostólicas, reais, simbólicas, mas todas familiares, ao alcance da
mão, na franja dos buxos aparados. Não sabe o viajante se no mundo existe outro
jardim assim. Se existe, copiámos bem; se é este o único, devia como tal ser louvado.
Um único senão nele encontra: não é jardim para descansar, para ler um livro,
quem entra tem de saber isso mesmo. Quando os antigos bispos aqui vinham, certamente
trariam os fâmulos a cadeirinha para o repouso e a oração, apertando a respectiva
necessidade, mas o visitante comum entra, dá todas as voltas que quiser, pelo
tempo que quiser, mas sentar-se só no chão ou nos degraus dos escadórios. Estas
estátuas são magníficas, não pelo valor artístico, certamente discutível, mas
pela ingenuidade da representação transmitida por um vocabulário plástico erudito.
Aqui estão os reis de Portugal, todos reis de baralho que lembram o reizinho de
Salzedas, e aqui está a patriótica desforra que consistiu em representar os reis
espanhóis em escala reduzida: não podendo ser ignorados, apoucaram-se. E agora
temos as estátuas simbólicas: a Fé, a Caridade, a Esperança, a Primavera e as
outras estações, e aqui, neste canto, obrigada a virar-se para a parede, a Morte.
Os visitantes, claro está, não gostam dela. Metem-lhe nas órbitas vazias bolas
mastigadas de pastilha elástica, colam-lhe no esgar das mandíbulas pontas de cigarro.
É de supor que a morte não ligue importância aos insultos. Ela bem sabe que cada
coisa tem seu tempo.
0 viajante concluiu o seu passeio, contou os apóstolos, viu o pequeno tanque
do jardim alagado, desenhado corno uma toalha de altar, e, tendo regressado à
Praça do Município, não encontrou parecenças nenhumas entre a estátua de João
Ruiz e os seus versos: o que ali está é um manequim a mostrar como se vestiam
fidalgos na época, e não um homem que soube escrever: Partem tão tristes os tristes,lTão
fora de esperar bem,/Que nunca tão tristes visteslOutros nenhuns por ninguém.
Parte também o viajante, não vai triste nem alegre, apenas preocupado com as grandes
nuvens que do norte estão vindo. Vai ser molhada a viagem. Eis senão quando a
mão severa da história sacode o viajante pelo ombro, acorda-o do devaneio em que
caiu desde que entrou em Castelo Branco: "Quem os ossos deixou na Igreja de Santa
Maria, quem na praça está em efígie, não é o poeta, meu caro senhor, mas sim Amato
Lusitano, médico, que o mesmo nome teve, mas não fez versos." Despeitado, o viajante
pára o carro, atira à estrada a inoportuna autoridade, e prossegue a viagem, continuando
a murmurar as palavras imortais de João Ruiz de Castelo Branco, ossos que são
e estátua de poesia. |